WITNESS e projeto AfrOrigens lançam Guia de Filmagem Subaquática
A WITNESS e o projeto AfrOrigens lançaram em novembro o Guia de Filmagem Subaquática, material que reúne orientações técnicas e recomendações práticas para a coleta de evidências audiovisuais debaixo d’água. Disponível em português e inglês, o guia busca apoiar comunidades e grupos de pesquisa na proteção de territórios, na defesa de direitos e na preservação da memória histórica, ampliando o uso do audiovisual como ferramenta de documentação ambiental.
Desenvolvido como uma ferramenta política e pedagógica, o guia apresenta métodos para registrar ambientes submersos que muitas vezes não são visíveis a olho nu. Entre os temas abordados estão o planejamento de filmagens seguras, técnicas para produzir imagens estáveis e estratégias para registrar cenas relevantes em ações de denúncia, monitoramento ambiental e investigação histórica.
Para quem pretende registrar ambientes subaquáticos pela primeira vez, o material oferece orientações de planejamento prévio, práticas seguras antes e durante a entrada na água, cuidados com correntes e condições climáticas, além de recomendações para preservar as imagens obtidas.
Para Natalie Hornos, gestora de programa da WITNESS, o lançamento do guia em parceria com o AfrOrigens é importante para apoiar a investigação de crimes ambientais, a comprovação de violações, o registro de acontecimentos históricos e o fortalecimento do conhecimento comunitário sobre os ecossistemas aquáticos.
“As imagens produzidas são registros poderosos para revelar histórias que foram apagadas. Por isso que apoiamos métodos e iniciativas de registros que fortalecem lutas por justiça e reforçam a defesa de territórios tradicionais”, destaca.
Com o aumento das violações ambientais em rios, mares e comunidades costeiras, registrar e denunciar abusos torna-se uma prática cada vez mais necessária. O guia pode ajudar a fortalecer a autonomia de comunidades e ativistas que utilizam o audiovisual para proteger ecossistemas e maretórios, exigir justiça e preservar histórias.
A publicação é parte da parceria com o AfrOrigens, projeto que atua junto a comunidades quilombolas no Brasil para fortalecer suas lutas por meio de pesquisa, educação e documentação audiovisual. Parte desse trabalho envolve registrar naufrágios na costa brasileira, especialmente de navios negreiros do período colonial, sítios de enorme relevância histórica e política para comunidades que buscam reconhecimento, justiça e reparação.
Estudo de caso
O guia apresenta um estudo de caso detalhado sobre o Brigue Camargo, navio escravagista afundado propositadamente em 1852 na região de Angra dos Reis (RJ) para ocultar seus rastros, uma vez que dois anos antes foi promulgada a Lei Eusébio de Queirós, que aboliu o transporte e o comércio escravista no país. A história do naufrágio permaneceu viva por gerações na memória do Quilombo do Bracuí, comunidade que teve papel fundamental nas investigações conduzidas por pesquisadores do projeto AfrOrigens, da Universidade Federal Fluminense (UFF), da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e da rede internacional Slave Wrecks Project.
A localização do sítio submarino Bracuí I, que aconteceu em 2023, revelou fragmentos, estruturas e vestígios do navio preservados no fundo do mar. As imagens captadas durante os mergulhos ajudam a confirmar aspectos históricos, proteger o patrimônio arqueológico e reforçar a importância de preservar esse território profundamente marcado pela violência colonial.
Lançamento do Guia no festival Visões do Mar
Em 18 de novembro de 2025, o Guia foi lançado no Visões do Mar – Festival Internacional de Documentários de Niterói (RJ), evento dedicado à exibição, reflexão e celebração do cinema que aborda as relações entre os oceanos, as comunidades costeiras, a identidade, memória e a cultura, nos modos de vida tradicionais ligados ao mar.
A convite da WITNESS, o debate contou com a presença da jovem quilombola e jongueira Larissa Lauren, da arqueóloga Luciana Alves, Diretora de Projetos Arqueológicos no Instituto AfrOrigens, e Martha Abreu, professora e pesquisadora da UFF, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e AfrOrigens. As participantes apresentaram o projeto AfrOrigens, a pesquisa dos destroços do Brigue Camargo e compartilharam sobre a importância de projetos de memória para o Quilombo do Bracuí.
